Da pioneira dos anúncios impressos à era da inteligência artificial, a trajetória da Eclética ajuda a entender como a publicidade brasileira saiu do improviso comercial e começou a ganhar método, comissão, criação e escala. Antes de existir como indústria organizada, o setor precisou aprender a intermediar, negociar e se apresentar como profissão.
Eclética, a primeira agência de publicidade do Brasil, ajuda a contar como o mercado aprendeu a se profissionalizar
Fundada em 1914 por João Castaldi e Jocelyn Benaton, a Eclética costuma ser tratada como a primeira agência de publicidade profissional do país. Mais do que uma curiosidade histórica, sua trajetória mostra o momento em que a propaganda no Brasil começa a ganhar método comercial, linguagem própria e ambição de mercado.
Antes da Eclética, a publicidade brasileira era marcada por iniciativas mais dispersas, amadoras e episódicas. Havia anúncio, havia comércio, havia imprensa. O que ainda não havia, com a mesma nitidez, era uma estrutura profissional voltada a intermediar essa relação de forma contínua.
É por isso que a história da agência importa. Ela não representa apenas “a primeira”. Representa o momento em que o setor começa a se enxergar como campo organizado.
A origem da publicidade profissional no Brasil
A Eclética nasceu em São Paulo, em 1914, com foco inicial na intermediação entre anunciantes e veículos impressos, especialmente jornais como O Estado de S. Paulo. Esse dado, por si só, já diz bastante sobre o estágio do mercado naquele momento.
A publicidade ainda estava fortemente ancorada na lógica da imprensa. O jornal era o grande palco. E a agência surge justamente para organizar o acesso a esse palco, profissionalizando a negociação e a circulação dos anúncios.
O que mudava com uma agência
Quando a Eclética surge, ela ajuda a organizar uma lógica que depois se tornaria básica no mercado: intermediar anunciantes e veículos, estruturar a negociação comercial e dar mais consistência ao processo de criação e veiculação.
Em outras palavras, a agência profissionaliza algo que antes ainda acontecia de forma mais dispersa. Isso não inaugura a publicidade no Brasil, mas inaugura um novo modo de operá-la.
A Eclética não é importante só por ter vindo antes. É importante por ajudar a transformar propaganda em sistema.
Os primeiros passos e os desafios
Um dos episódios mais reveladores dessa fase inicial foi a negociação pela comissão de 20% sobre a captação e a veiculação dos anúncios. Pode parecer um detalhe burocrático, mas não é. É justamente aí que a atividade começa a se estruturar como negócio viável.
Também chama atenção o fato de Castaldi dirigir o jornal A Capital, fundado em 1912. Essa proximidade com a infraestrutura gráfica ajudou a agência a oferecer material mais elaborado, inclusive soluções coloridas num momento em que isso ainda encontrava resistência.
Dessa combinação nasce um marco histórico frequentemente citado: o primeiro anúncio em cores da imprensa brasileira, publicado em 30 de maio de 1915 na primeira página de O Estado de S. Paulo, promovendo o Cimento Aalborg.
Mais do que corretagem de espaço
O texto-base que você mandou insiste num ponto certo: a Eclética não se limitou à compra e venda de espaço. Ela buscou se diferenciar oferecendo serviços mais completos de criação e veiculação. Esse movimento é decisivo porque antecipa uma ambição que depois se tornaria central nas agências.
Não bastava apenas colocar o anúncio no jornal. Era preciso pensar como ele apareceria, com que acabamento, com que impacto, com que poder de convencimento. A agência passa, então, a disputar também a forma da mensagem.
Profissionalizar a publicidade não era só vender anúncio. Era começar a tratar forma, circulação e negócio como partes da mesma engrenagem.
Evolução e contribuição para o mercado
Ao longo das décadas seguintes, a trajetória da Eclética acompanha a expansão do próprio mercado publicitário brasileiro. O país se urbaniza, os meios mudam, o consumo se reorganiza e a publicidade precisa aprender novas linguagens.
Nesse percurso, a agência ajuda a formar uma lógica de trabalho que atravessa gerações. Mais do que casos isolados, o que fica de sua história é uma espécie de gramática inicial do setor.
É por isso que a Eclética segue sendo lembrada. Não porque seu nome sobreviva com o mesmo peso de uma marca contemporânea, mas porque ela ocupa esse lugar simbólico de origem profissional.
O que essa história diz hoje
Num cenário atual marcado por transformação digital, automação e inteligência artificial, olhar para a Eclética ajuda a colocar a discussão em perspectiva. Toda época gosta de se imaginar vivendo a grande revolução definitiva da publicidade. Mas o setor sempre mudou quando mudaram os meios, os formatos e as lógicas de produção.
Se ontem a novidade era a cor impressa numa primeira página, hoje pode ser a integração de dados, automação criativa ou IA. O ponto em comum não é a tecnologia em si. É a necessidade contínua de adaptação.
Reimaginar também é interpretar
O exercício de atualizar hoje o anúncio do Cimento Aalborg ajuda menos a “modernizar” o passado e mais a perceber como mudaram as expectativas do mercado. Entram temas como sustentabilidade, tecnologia, performance e linguagem mais promocional.
Só que o contraste também deixa algo claro. Antes de existir hashtag, já existia a necessidade de diferenciar produto, defender valor e disputar atenção. O que muda é o repertório da época. A ambição persuasiva continua.
O que permanece
A trajetória centenária da Eclética ajuda a contar não apenas a história de uma agência, mas a história de uma disciplina que passou a se reconhecer como profissão no Brasil. Do impresso ao algoritmo, do anúncio colorido à integração entre mídia e tecnologia, o mercado muda. A necessidade de relevância, não.
E talvez seja essa a melhor leitura possível para a Eclética hoje. Ela não pertence apenas ao passado da publicidade brasileira. Pertence também à pergunta permanente sobre como esse mercado se reinventa sem deixar de depender de uma mesma base: repertório, adaptação e linguagem.
Da primeira comissão aos sistemas de IA, a publicidade continua girando em torno da mesma tensão: como transformar meio, técnica e mensagem em valor de mercado.
Créditos principais
Agência: Eclética
Fundação: 1914
Cidade: São Paulo
Fundadores: João Castaldi e Jocelyn Benaton
Atuação inicial: agenciamento de anúncios em jornais impressos
Marco histórico associado: primeiro anúncio em cores da imprensa brasileira, em 30 de maio de 1915, para o Cimento Aalborg
Importância: consolidação da publicidade como atividade profissional organizada no Brasil
Referências
MEIO & MENSAGEM. Primeira agência completa cem anos.
VALOR ECONÔMICO. Há 110 anos, a primeira agência do Brasil.
AB9. Qual foi a primeira agência de publicidade no Brasil?.



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