Move você. Move a Shell: o que o manifesto revela sobre a nova comunicação da marca

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Uma pergunta aparentemente simples abre o novo manifesto da Shell: o que me move? Entre um cachorro chamado Tobias, encontros, viagens e a volta para casa, a campanha da iD\TBWA procura colocar os motivos das pessoas antes dos produtos da marca.

Imagem de divulgação do vídeo da campanha Move você. Move a Shell, lançada em outubro de 2026 com criação da iD TBWA e produção da Santeria
O filme-manifesto apresenta a nova assinatura da Shell no Brasil. Imagem do vídeo oficial no YouTube.

Dose Publicitária / Análises e críticas / Campanhas e linguagem

A nova assinatura da Shell começa perguntando pelos motivos de quem sai de casa. No filme criado pela iD\TBWA, a resposta passa por terra, cachorro, família, estrada e um posto de combustível. O que parece simples na tela traz uma decisão importante de roteiro: a marca só entra depois que as pessoas já começaram a falar.

Na rota desta leituraO manifesto e seus personagensComo o roteiro conduz até a marcaO que muda no posicionamentoA pertinência e os limites da promessaCréditos e fontes para pesquisa
Assista primeiro ao filme-manifesto. Sua montagem de aproximadamente 40 segundos concentra a mudança de perspectiva que sustenta a campanha.

Se você perguntar a alguém por que sai de casa todos os dias, provavelmente vai ouvir uma resposta muito diferente de “para abastecer o carro”. Mesmo quando precisa abastecer. A resposta pode ser o trabalho, uma visita, uma entrega, a volta para casa, a vontade de reencontrar alguém. Ou Tobias. Tobias é o cachorro que aparece logo no começo do novo comercial da Shell, suficientemente importante para dividir com a terra os motivos que fazem seu dono se mover.

A presença do cachorro é dessas pequenas escolhas que dão uma textura humana ao que poderia ser mais um manifesto de marca cheio de generalidades. O filme abre com a pergunta “O que me move?” e deixa que diferentes personagens respondam. A Shell, por enquanto, fica quieta. O posto está ali, mas o que importa é outra coisa.

O filme integra a plataforma “Move você. Move a Shell”, lançada no Brasil em 14 de outubro de 2026, com criação da iD\TBWA para a Raízen, licenciada da marca Shell no País. O objetivo declarado é reunir sob uma mesma narrativa a rede de postos, a família de combustíveis Shell V-Power, o aplicativo Shell Box e as lojas Shell Select. O lançamento foi apresentado pela Propmark e detalhado pelo Clube de Criação.

O que me move? Uma pergunta que adia a resposta da marca

A estrutura do texto não é difícil de perceber, mas é bem resolvida. Cada fala começa num universo particular. Cuidar da terra e do Tobias. Participar de momentos que outras pessoas não vão esquecer. Gostar da estrada e, ainda assim, querer chegar logo à família. Estar com quem importa. São razões diferentes, reunidas por um mesmo verbo.

Mover é uma palavra confortável para uma marca de combustíveis. Carros se movem. Caminhões se movem. Pessoas se deslocam para trabalhar e viver. Mas o comercial prefere começar pelo outro sentido do verbo, aquele que não depende de motor: ser movido por algo, ter um motivo, uma razão afetiva ou prática para fazer alguma coisa.

É nesse duplo sentido que mora o mecanismo da redação. O texto aproveita o verbo que pertence à categoria e o devolve às pessoas com outro peso. Mais adiante, quando a locução afirma que a Shell quer estar com você durante esse percurso, já existe um pequeno repertório emocional montado. A marca entra numa conversa que parecia não estar falando dela.

O que move o motorista, no comercial, não é o combustível. É aquilo que o faz precisar da estrada.

O risco dessa escolha é conhecido: em busca de emoção, a publicidade pode transformar qualquer empresa na guardiã genérica das histórias humanas. Banco, seguradora, operadora, montadora, todas podem dizer que acompanham seus sonhos. O que impede esse manifesto de flutuar inteiramente nesse terreno é a volta ao concreto, aos serviços que a Shell efetivamente oferece ao longo do caminho.

Uma pequena anatomia do filme

O roteiro tem pouco mais de meio minuto para levar a audiência da pergunta individual à assinatura. Em vez de tratar cada cena como demonstração de produto, ele apresenta situações cujos significados se completam na fala. A passagem é rápida e funciona como uma sequência de motivos. O mesmo posto pode ser atravessado por pessoas que não compartilham o destino, mas precisam de algum apoio durante o deslocamento.

00:03
A terra e Tobias

A primeira resposta tem nome, lugar e cachorro. O detalhe específico impede que o discurso comece em abstrações.

00:09
Uma lembrança que ainda vai acontecer

“Fazer parte dos momentos que elas nunca vão esquecer” desloca a narrativa para a experiência compartilhada, sugerindo celebração e presença.

00:15
Estrada e retorno

O prazer de dirigir aparece ao lado da vontade de chegar. A mobilidade tem encanto, mas também tem saudade e urgência.

00:23
Quem importa

A sucessão de histórias converge para relações afetivas, preparando a passagem da primeira pessoa para uma ideia coletiva.

00:28
O posto entra na história

A narração generaliza os motivos individuais e introduz a Shell como acompanhante dos deslocamentos.

00:34–00:40
Serviço, pergunta, assinatura

Abastecer, pagar, trocar óleo e tomar café trazem a promessa ao posto. A pergunta retorna e vira a assinatura “Move você. Move a Shell”.

Essa ordem faz diferença. Uma abertura dedicada a combustível, pagamento e conveniência teria informado mais cedo o que a Shell vende. Seria um caminho perfeitamente compreensível. Mas também mais parecido com quase toda comunicação funcional da categoria. A campanha prefere deixar que o espectador perceba primeiro para que serve o movimento na vida de alguém e, só depois, o que a empresa oferece para viabilizá-lo.

O texto termina com um movimento circular. A pergunta “O que me move?”, feita no singular, reaparece como “E você, o que te move?”. Quem assistiu às histórias alheias passa a ocupar o lugar de quem responde. O desfecho, “Porque se move você, move a Shell”, devolve à empresa a palavra que percorreu o filme inteiro.

A assinatura trabalha em duas direções

O slogan merece atenção porque funciona quase como uma dobradiça. Na primeira metade, “Move você”, a frase encosta na vida do consumidor. Na segunda, “Move a Shell”, transforma os desejos e necessidades dele em princípio de atuação da companhia. Não é um truque sintático extraordinário. Mas o espelhamento torna a assinatura fácil de compreender e suficientemente aberta para receber histórias diferentes ao longo do tempo.

Se a marca pretende usar esse posicionamento nos próximos anos, essa abertura importa. Um anúncio sobre estrada, outro sobre conveniência, um terceiro sobre pagamento pelo celular e um quarto sobre transporte profissional podem se reconhecer sob a mesma ideia. O desafio deixa de ser repetir literalmente as mesmas palavras. Passa a ser demonstrar, em cada peça, por que aquela história pertence à plataforma.

Rodrigo Patuzzo, diretor de Marketing Integrado da Raízen, associa a proposta aos encontros, conquistas, responsabilidades e sonhos que motivam os deslocamentos. Camila Costa, CEO da iD\TBWA, identifica no projeto o desafio de aproximar a marca das motivações das pessoas sem perder o contato com o negócio. As duas falas ajudam a enxergar a intenção estratégica por trás da emoção do filme. Ambas constam da apresentação pública da plataforma.

Do posto ao ecossistema: o que a campanha pretende reorganizar

Quando a propaganda de postos trabalha apenas preço, quilometragem e desempenho, costuma disputar um território em que a comparação é imediata. A marca pode ser escolhida por conveniência geográfica, confiança, promoção ou hábito. Ao reunir essas funções num discurso mais amplo de mobilidade, a Shell tenta organizar aquilo que sua comunicação oferece para além da bomba de combustível.

Há uma lógica de portfólio bastante concreta nessa decisão. Shell V-Power atende a dimensão do abastecimento; o Shell Box responde pela experiência de pagamento e conveniência digital; a Shell Select representa a parada, o café e as pequenas necessidades do trajeto. O filme lista essas atividades na reta final, quando o manifesto precisa sair dos sentimentos e mostrar alguma materialidade.

Esse movimento encontra um paralelo curioso com a campanha “Lá a Parada é Completa”, da Ipiranga, analisada na Dose Publicitária. As duas tentam contar uma rede de serviços com uma única ideia, mas escolhem caminhos de linguagem diferentes. A Ipiranga se apoia num bordão popular, no humor e na memória que acumulou. A Shell prefere perguntar pelas razões de quem chega. Uma quer ser lembrada como resposta para a parada. A outra quer acompanhar o motivo do deslocamento.

É interessante observar como duas marcas podem encarar um problema comercial parecido e produzir temperamentos publicitários tão distintos. Isso diz muito sobre o que se chama, no trabalho de criação, de pertinência criativa. Não basta encontrar uma frase bonita para a categoria. É preciso que ela organize os produtos, dialogue com o repertório existente e encontre uma forma que a marca consiga sustentar.

O que a câmera acrescenta à redação

O filme procura uma aparência próxima da linguagem documental. São pessoas em situações reconhecíveis, com gestos cotidianos e motivos que não parecem ter sido inventados para caber numa tabela de benefícios. Isso não torna a peça um documentário, nem prova que os depoimentos tenham surgido espontaneamente. Continua sendo publicidade, com produção, direção, montagem e objetivo definido.

Mas a escolha de linguagem conta. Felipe Luchi, diretor da Santeria, destacou à imprensa a preocupação em preservar a espontaneidade dos personagens e construir unidade visual entre os filmes. O comentário ajuda a entender a direção do trabalho.

Na montagem, a multiplicidade dos motivos faz um trabalho que uma única história longa talvez não conseguisse fazer em quarenta segundos. O espectador não recebe tempo suficiente para se apegar a cada personagem, mas encontra fragmentos capazes de completar a própria experiência. A pessoa pode nunca ter chamado seu cachorro de Tobias. Ainda assim, reconhece a relação entre o cuidado cotidiano e a necessidade de sair de casa.

O dispositivo é simples: quando uma história ganha uma pequena particularidade, ela tende a parecer menos fabricada. E, quando várias particularidades são colocadas em sequência, o filme sugere que quase todo mundo tem uma razão própria para continuar se movendo. É uma forma de tornar universal uma ideia sem apagar completamente o detalhe.

Quando o manifesto precisa sair da tela

A campanha tem uma qualidade que costuma faltar a certas peças institucionais: a marca só revela tudo o que quer vender quando já deu uma razão para o espectador continuar assistindo. Ainda assim, o filme não resolve sozinho os problemas da experiência de consumo. Preço, atendimento, qualidade do combustível, funcionamento do aplicativo e condições reais dos postos permanecem fora do alcance da emoção filmada.

É aqui que uma assinatura deve ser cobrada. Dizer que o consumidor move a Shell cria uma expectativa de escuta e resposta às necessidades dele. O conceito poderá ganhar força se essas necessidades estiverem presentes nas próximas peças e na experiência cotidiana. Também poderá virar um lema intercambiável se a marca passar a utilizá-lo apenas como trilha emotiva para qualquer lançamento.

A própria indústria de combustíveis enfrenta discussões que vão além do posto: transição energética, custos, impactos ambientais e mudanças no significado de mobilidade. A campanha analisada não se apresenta como resposta a todas essas questões. Seria um exagero cobrar que quarenta segundos resolvessem o setor. Mas também seria descuidado tomar o tom humano do filme como prova de compromissos que dependem de políticas, investimentos e resultados verificáveis.

Por enquanto, o que temos é uma intenção de posicionamento e sua primeira tradução audiovisual, não uma demonstração de eficácia. A marca divulgou uma plataforma multicanal com 12 peças audiovisuais, em formatos e distribuições diferentes. Não foram localizados, nas fontes consultadas, indicadores públicos suficientes para afirmar melhora de lembrança, preferência, vendas ou reputação decorrente deste manifesto.

Talvez o maior mérito da escrita esteja na recusa em começar pelo posto. Um combustível é utilizado para mover um veículo, mas dificilmente é a primeira resposta à pergunta sobre aquilo que move uma pessoa. A propaganda encontra, nessa diferença, um espaço para construir sua mensagem sem precisar abandonar o que vende.

Um exercício de redação para quem estuda criação publicitária

Para estudantes, redatores e profissionais de criação, há um procedimento interessante escondido nessa campanha: deslocar a pergunta do produto para a motivação de quem o utiliza. O exercício funciona quando o benefício real continua presente e a história não se torna desculpa para uma emoção solta. Na Dose, isso também conversa com a ideia de poesia publicitária, na qual as relações entre palavras, sentidos e formas participam da criação do conceito.

Caderno de criação / Kit de Primeiros SoCops

O motivo antes do motor

Escolha um produto que parece exigir uma propaganda funcional. Em seguida, experimente percorrer as perguntas abaixo antes de escrever a headline.

  1. O que o produto faz? Descreva sua função com precisão, sem adjetivos grandiosos.
  2. Por que alguém precisa que ele faça isso? Procure situações, necessidades e comportamentos concretos.
  3. O que existe antes desse uso? Uma preocupação, um desejo, uma responsabilidade, uma rotina ou uma pessoa.
  4. Qual palavra liga as duas coisas? No caso da Shell, “mover” conecta deslocamento físico e motivação pessoal.
  5. Que prova devolve a ideia ao negócio? Transforme a metáfora em serviço, funcionalidade ou experiência verificável.
  6. O que ficaria falso? Corte a emoção que a marca não consegue sustentar quando o público sai do comercial e entra no mundo.

O anúncio não precisa seguir essa sequência ao pé da letra. O exercício ajuda a descobrir se há uma relação pertinente entre o que o produto faz e o que importa para quem o usa.

De volta à pergunta

O cachorro Tobias provavelmente não sabe que entrou para uma discussão sobre branding. Para ele, o dono continua sendo quem cuida da terra e dele. O motorista que gosta da estrada continua querendo voltar para casa. E quem faz uma parada para um café não precisa transformar esse gesto cotidiano em manifesto.

A Shell é que precisa encontrar uma forma de participar desses momentos sem parecer dona deles. O roteiro entende essa diferença quando começa dando voz às pessoas, não à marca. E é por isso que a pergunta funciona melhor do que uma resposta antecipada.

No fim do filme, a assinatura se apresenta quase como um pacto: “Move você. Move a Shell”. A primeira metade pertence ao público. A segunda ainda terá de ser demonstrada pela empresa. Talvez seja esse o teste mais interessante de qualquer manifesto publicitário: descobrir se, depois que a campanha termina, a promessa consegue continuar andando.

Quem moveu a campanha: créditos de criação e produção

Ficha técnica identificada no Clube de Criação. Os profissionais e funções abaixo correspondem às informações publicadas; não atribuí créditos individuais de redação que não constam da ficha.

Agência, criação e estratégia

Cliente: Raízen / marca Shell no Brasil. Agência: iD\TBWA. CEO: Camila Costa. Direção executiva de criação: Sthefan Ko. Direção de criação: Guga Diehl. Direção de criação associada: Mateus Martins. Criação: Ana Salles e Thomas Lima. Diretor geral de negócios: Rodrigo Ribeiro. CMDO: Thiago Fernandes. Planejamento e insights: Juliana Meirelles, Danyllo Silveira, Gabriel Lopes, Leticia Castro, Julia Assunção e Caio Morais.

Atendimento, mídia e produção da agência

Atendimento: Ana Claudia Torrens, Victor Fernandes, Cyntia Gomes, Camila Silva e Giovanna Vermes. Mídia: Renato Vian, Luciana Gabino, Pedro Ferrari e Emanuelle Amorim. BI: Priscila Sanita, Flávio Araújo, Natalia Asevedo, Thomaz França e Juan Rodrigues. Conteúdo: Eduardo Marcondes, Juliana Tozzi e Gustavo Bertassoli. Influência: Marlon Faria, Marcello Pereira e Dayanne Fernandes. PR: Marina Fagionato e Motin. Produção da agência: Patricia Gaglioni, Jackeline Neuwirt, Valdir dos Santos e Adriana Silva.

Produção do filme

Produtora: Santeria. Direção de cena: Felipe Luchi. Primeira assistência de direção: Verônica Bondezan. Segunda assistência: Ivan Benigno. Atendimento da produtora: Claudia Caldeira, Hellen Gazetta, Yasmin Gama, Carol Rodrigues e Gabi Reis. Coordenação de produção: Ana Paula Domingues e Larissa Quicoli. Fotografia, unidade A: Leo Kawabe. Os demais nomes e atribuições completos podem ser consultados na ficha original.

Fontes e documentos para pesquisa

  1. Shell, canal institucional no LinkedIn. Apresentação pública da plataforma “Move você. Move a Shell”.
  2. Raízen, comunicação institucional. Posicionamento, serviços e conjunto de peças.
  3. Clube de Criação, 21 out. 2026. Agência, estratégia, falas de envolvidos e ficha técnica.
  4. Propmark, 15 out. 2026. Lançamento e estrutura multicanal.
  5. Grandes Nomes da Propaganda, 15 out. 2026. Declarações de Rodrigo Patuzzo e Camila Costa.
  6. Mobilidade Sampa, out. 2026. Declaração de Felipe Luchi sobre a direção do filme.
  7. Shell, filme “Move você. Move a Shell”. Roteiro audiovisual analisado.
  8. Dose Publicitária. Análise comparativa da campanha “Lá a Parada é Completa”, da Ipiranga.

Nota de leitura: trechos pontuais do roteiro foram fornecidos pelo autor da pauta, com marcações de tempo. A análise da construção verbal, dos personagens e do posicionamento é editorial e não equivale a declaração de intenção dos criadores. A Shell é marca licenciada pela Raízen no Brasil. Este conteúdo é independente, não patrocinado e não afirma resultados comerciais que não tenham sido divulgados.

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